segunda-feira, 21 de abril de 2008

SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE

O primeiro capítulo da trilogia da vingança de Park Chan-Wook é o mais cru, trágico e brutal da série, além de ser um soco no estômago e um exemplo poderoso de como a ética é uma coisa relativa e de como a violência gera mais violência.

Com: Kang-Ho Sang, Ha-kyun Shin, Du-na Bae, Ji-Eun Lim. "Boksuneun naui geot" 129 mins. Coréia do Sul, 2002. Direção: Chan-wook Park.
Cotação: 10

O filme tem como um dos personagens principais Ryu (Shin), um jovem surdo e mudo que precisa urgentemente de dinheiro para que sua irmã (Lim) possa fazer um transplante de rim. Depois de ser demitido da fábrica onde trabalha, ele decide pagar para que traficantes de órgãos retirem um de seus rins na intenção de doá-lo à sua irmã, mas é enganado pela quadrilha. Sem emprego e sem dinheiro, Ryu é convencido pela namorada Yeong-mi (Bae) a seqüestrar a filha do seu ex-chefe, o Sr. Park Dong-jin (Song), para conseguir o dinheiro do transplante. O rapto corre como o planejado, mas uma fatalidade vai mudar para sempre a vida das pessoas envolvidas na situação.
Pela sinopse, esse parece ser apenas mais um longa sobre vingança. Só parece, porque assim como Oldboy, Mr. Vengeance não é um filme sobre vingança como os que estamos acostumados a ver por aí; não é um trabalho com personagens caricatos e superficiais como o herói lindo e forte que espanca todo mundo, faz gracinhas e dá lições de moral, a mocinha que só pensa em compras, festas, gatinhos e popularidade. Também não há tiros e explosões a cada 5 minutos nem milhões gastos em efeitos especias; tampouco há piadas sem sal que tentam desesperadamente agradar o público. Não, definitivamente não. Aqui o humor é ácido, a violência não se justifica por si só, o roteiro é muito bem escrito e o mais importante: em meio à busca incessante (e violenta) por vingança que ocorre no trabalho, há espaço para entendermos com mais profundidade a complexidade dos personagens. Um exemplo disso é a forma como a filha do chefe de Ryu se apega aos seqüestradores de modo quase familiar devido à falta de tempo e atenção dos pais.

Uma coisa que me chamou a atenção na película foi a maneira como Park retratou as ações e reações dos personagens. Se em Oldboy eles são movidos por tragédias e fantasmas do passado, em Sympathy eles agem de acordo com a situação em que se encontram. Como na vida, certo e errado são relativos e as decisões tomadas pelos personagens podem até não parecer corretas para o espectador, mas duvido que você não cogitaria as possibilidades apresentadas no longa se estivesse na mesma situação.

Outro ponto alto da projeção é a trilha sonora (ou a falta dela). Como o personagem principal é surdo/mudo, Chan-Wook optou por quase não fazer uso de música no longa, chegando a homenagear o cinema mudo em algumas partes, quando os personagens se comunicam através da linguagem de sinais e a legenda branca aparece no fundo preto. Acertou em cheio. A ausência de música no filme, que tem apenas uma introdução de piano no início e uma música macabra no meio e no final da projeção, provoca longos silêncios que deixam o espectador angustiado em vários momentos. A fotografia está sempre variando em valorizar o 1º plano, embaçando o fundo, e vice-versa.
A película tem um bom ritmo, chegando a fazer com que o espectador queira que o longa seja mais lento algumas vezes para evitar o desfecho, que, como em Olboy, faz pensar. O elenco é bom e está seguro nas atuações, sendo difícil destacar apenas um nome. Song Kang-ho, que interpreta o Sr. Park Dong-jin, e também pode ser visto nos ótimos The Host (junto com Bae Du-na), JSA e Memories of Murder, é um dos ícones do atual cinema coreano. Shin Ha-gyun, que atuou no sensacional "Save the Green Planet", está muito bem como o surdo/mudo Ryu; e a bela Bae Du-na, que faz Yeong-mi, namorada de Ryu, não fica atrás de seus companheiros, protagonizando com Song Kang-ho a cena de tortura mais angustiante do longa.
Pesado, Sympathy não faz questão de agradar o espectador, tendo a coragem de mandá-lo para fora do cinema com uma enorme sensação de esgotamento e frustração pelo destino dos personagens (particularmente, fiquei um lixo depois do filme). Aqui a violência não é gratuita, não há heróis e vilões e os personagens têm motivos mais que relevantes para cometerem os atos que cometem. Aqui, todos têm virtudes e defeitos e são, acima de tudo, HUMANOS como todos nós. Aliás, humanidade é uma palavra que será bastante usada para falar dos filmes da trilogia da vingança de Park.
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O longa tem distribuição no Brasil pela Europa Filmes e pode ser encontrado em qualquer locadora.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Onde Os Fracos (Velhos) Não Têm Vez

Pequena obra-prima sobre o sentido (ou da falta de sentido) da violência, o longa é preparado para frustrar o espectador da primeira a última cena. Mas ao contrário do que muitos pensarão, essa frustração é a melhor e a mais plausível possível.

Estrelando: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Kelly MacDonald. Distribuidora: Paramount Classics/Europa Filmes. “No Country For Old Men” EUA, 2007. 122min. Direção: Ethan e Joel Coen.
Cotação: 10

Se há uma coisa melhor que ver um bom filme, é ver a reação das pessoas após o término de um trabalho. Acho fundamental numa obra que ela cause reflexão, debates, caso contrário, ela fica sem sentido. Goste ou odeie, acho fundamental essa reação. A manifestação de indiferença soa como se a pessoa simplesmente não tivesse visto (lido, provado, sentido) a obra e, conseqüentemente, é como se ela não existisse para essa pessoa, o que é uma pena, pois por causa do final de onde “Os Fracos Não Têm Vez”, que muitos dizem ser aberto a interpretações, mas que pra mim não tem nada de aberto, sendo absolutamente bem amarrado, satisfatório e claro na mensagem que pretende passar, além de ser perfeito por tudo o que é mostrado no longa, as pessoas ou tendem a ficar indiferentes ou a detestar o filme por serem frustradas por uma conclusão que não atende às expectativas Hollywoodianas às quais a maioria de nós está acostumada: bandido ruim tem que morrer ou ir preso e o mocinho bonzinho tem que viver e ser feliz para sempre com a mocinha, caso contrário, o filme não é completo. Sendo assim, entendo a indiferença e a frustração da maioria.

Mas discordo dela, pois o filme é uma pequena obra-prima sobre a violência e o seu sentido (ou falta de). Quem conhece o trabalho dos irmãos Coen (responsáveis por filmes como Gosto de Sangue, Arizona Nunca Mais, Ajuste Final e Fargo) sabe que a história em seus filmes não costuma ser o tema principal, e sim os personagens. Assim sendo, o longa se resume à fuga de um texano comum chamado Llewelyn Moss (Josh Brolin) da caçada de um assassino psicopata chamado Anton Chigurh, vivido brilhantemente por Javier Bardem (de Mar Adentro), após aquele encontrar uma maleta com 2 milhões de dólares perto de uma picape cheia de cadáveres. Ao mesmo tempo, o xerife Ed Tom Bell (Tomy Lee Jones) tenta encontrar Moss antes que Chigurh o mate, ficando impressionado com a carnificina promovida pelo assassino.

A sinopse não é das mais originais, não acha?, mas os personagens, quanta diferença... Eles são completamente despidos em nossa frente graças aos diálogos extremamente fluidos e inteligentes que permeiam o roteiro. Eles foram praticamente todos preservados do livro de Cormac McCarthy, no qual o longa é baseado. Um ponto positivo disso é que as conversas não fazem distinção entre personagens principais e secundários. E há vários exemplos de ótimos diálogos. Esse é um deles:

Carlson:
- Você tem idéia do quanto é louco?

Chigurh:
- Você se refere à natureza dessa conversa?

Carlson:
- Não, me refiro à natureza da sua pessoa.

Outro exemplo pode ser citado na cena em que perguntam ao personagem de Josh Brolin o que ele fez com o dinheiro, no que este responde: “Gastei 1,5 milhão com prostitutas e uísque. O resto eu desperdicei”. É impressão minha ou só eu percebi um texto de um episódio do Chapolin aí?


Ultimamente tenho visto muitos filmes sem trilha sonora, e “Onde os Fracos não Têm Vez” é mais um deles. Assim como em “4 meses, 3 semanas e 2 dias” e “Sympathy For Mr. Vengeance”, a ausência de trilha sonora funciona muito bem, extraindo apenas (e de forma brilhante, diga-se de passagem) o som ambiente como o ranger do assoalho, a respiração ofegante, etc. A fotografia escura dá ao filme um tom noir, que combinado à uma estética western funciona incrivelmente bem.


E não há de se falar propriamente em bem ou mal, pois estes são relativos e mudam conforme muitas variantes, mas como é comum rotular tudo, dirão por aí para polarizar o “bem”, que este é representado por Tomy Lee Jones na pele do xerife Ed Tom Bell, que não entende como pode haver pessoas como o psicótico assassino e lamenta que os tempos em que os mais velhos eram respeitados e que os xerifes não precisavam de armas para combater o crime tenham passado e dado lugar ao caos atual. Dessa forma, o personagem do brilhante Javier Bardem, o lunático Anton Chigurh, surge como o mal e como contraponto do xerife, além de ser uma metáfora bastante convincente da violência, do constante processo de desumanização que vivemos e da banalidade da violência presente em todo o mundo: Chigurh não precisa de nenhum motivo para matar, basta que alguém atravesse seu caminho e, às vezes, conte com uma ajudinha da sorte num jogo e cara ou coroa. E o próprio Anton está sujeito ao caos geral, como podemos ver no fim do trabalho. Em cima do muro está o personagem de Josh Brolin, Llewelyn Moss, que apesar de não ser exatamente não ser o que se pode de bom samaritano e exemplo de honestidade, é condenado a ser perseguido justamente por ser “fraco” e praticar um ato de humanidade.

Bardem está nada menos que fenomenal na pele de Chigurh, um monstro que não mostra nenhuma piedade ou arrependimento pelas vidas que tira. O corte de cabelo dele, que pode parecer uma coisa banal, mas que é algo importante para a caracterização do personagem, confere a ele um ar ainda mais assustador. Experiente como é, Javier é inteligente ao não caricaturar o personagem. Apesar de ser uma máquina de matar, Anton não chama atenção e não fala aos berros, sempre controlando sua voz, mesmo quando está irritado com alguma situação ou coisa. Tomy Lee Jones também está fabuloso como o pessimista xerife Ed Tom Bell, que justamente por saber que não conseguirá mudar o mundo nem acompanhar o ritmo de decadência da sociedade moderna, tendo que conviver com o caos existente nele, nos causa identificação justamente pelo fato se sentir (e nos fazer sentir) impotente perante toda a situação de brutalidade que vê enquanto busca proteger Moss. E esse fato se comprova quando um personagem diz ao xerife que ele não pode impedir o que está por vir.

No título “Onde os Fracos (velhos) Não Têm Vez”, os fracos são justamente todos aqueles que negam o embrutecimento, mantêm os seus princípios e recusam a desumanização. Se você já se sentiu ou se sente parte desse grupo, seja bem-vindo ao clube dos que ainda acreditam num futuro melhor, apesar dos pesares. E se um dia você tiver um sonho no qual uma luz quente e reconfortante aparece no meio da noite fria e escura, não se deixe abater por estas três simples palavras: “E aí acordei”.

PS: Anton Chigur é um assassino muito foda, mas pra chegar a Kakihara (ver "Ichi, o Assassino") ainda tem que comer muito arroz com feijão. :0D

segunda-feira, 3 de março de 2008

My Sassy Girl

O filme de Kwak Jae-yong é um vendaval de originalidade que varre um gênero dominado pela imbecilidade.


Com: Jeon Ji-hyeon, Cha Tae-hyeon, Yang Geum-yong, Song Ok-sook, Han Jin-hee, Kim In-moon, Kim Il-woo. Diretor: Kwak Jae-yong Coréia do Sul, 2001 Cor – 137 min./122 min.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=mZQCHWOM9bw
Cotação: 9.0


Não sei se é só comigo que isso acontece, mas sempre que vejo (aliás, desde a primeira vez que vi) “My Sassy Girl” lembro da música da Legião Urbana ‘Eduardo e Mônica’, pois são muitas as semelhanças. É ela quem manda na relação e toma a iniciativa em tudo, ficando ele sujeito às suas vontades e variações de humor se não quiser “morrer”. E as vontades dela (que não tem o nome dito uma vez no filme, sendo feita apenas uma suposição de que o seu nome seria Jung-jo) vão das coisas mais simples, como receber uma rosa na sala lotada de um liceu, às mais bizarras, como exigir que ele troque de sapatos com ela, usando o seu salto-alto e nenhum outro tipo de calçado mais.

O pobre rapaz que suporta todas as loucuras dela se chama Gyeon-woo. Ele é o narrador da história que começa com ele voltando ao lugar onde dois anos atrás enterraram uma cápsula do tempo e combinaram de se encontrar. Na cidade, dois anos antes, o jovem estudante se depara com uma moça caindo de bêbada no metrô e após uma série de acontecimentos, os dois começam a passar mais tempo juntos se tornando uma espécie de casal. De início, Gyeon-woo quer apenas curar a dor que vê nela e livrá-la das lembranças de um doloroso passado, mas logo as coisas mudam.


Ao contrário do que a sinopse pode sugerir, “My Sassy Girl” é uma comédia, e das boas. Sucesso de bilheteria na Coréia do Sul (país natal do trabalho) à época do seu lançamento (2001), só perdendo em bilheteria para o filme ‘Chingu’, o longa é um OVNI no meio de tantas comédias imbecis feitas mundo afora todos os anos e um exemplo de que com diálogos inteligentes, um pouco de boa vontade, bons atores e direção, é, sim, possível fazer com que uma premissa que soa ‘rasa’ se transforme numa história interessante capaz de prender até uma pessoa que não é fã do gênero, como eu.

O filme é dividido em três atos: os dois primeiros, que se concentram no começo da relação dos dois, os detalhes dela e na construção dos personagens, além de servirem também como os recipientes em que a comédia se desenvolve, e o prolongamento, do qual falarei mais adiante.


Respirando naturalmente, um dos grandes méritos do filme é não presumir que o espectador seja um completo idiota. Sem estabelecer vínculos que o prendam ao gosto médio do público que não exige nem de si nem do filme, ‘My Sasy Girl’ frustra os espectadores preguiçosos ao evitar os clichês tão comuns do gênero. Aliás, errei a palavra. Evitar, não, tratar bem os clichês. Outro mérito do longa é saber lidar com eles, pois a maioria está ali: um casal que se conhece em circunstâncias, digamos... diferentes, brigam, se reconciliam... E ainda que pareça uma ironia essa seqüência de clichês, o filme foi baseado numa história real escrita por Kim Ho-sik, em que este relatava num blog as aventuras e desventuras ocorridas com uma mulher com quem tinha mantido uma relação.

O grande diferencial do trabalho reside no modo como tudo é feito, que é bem original. A maneira como certas situações são tratadas são realmente muito inteligentes. A cena em que surge um ‘clima’ entre os protagonistas, por exemplo, poderia facilmente cair no óbvio, mas o roteiro não permite. Além disso, o humor (certas vezes non sense) é muito bem empregado. A cena em que ‘ela’ e Gyeon-woo estão no metrô e fazem uma aposta é hilária. As seqüências com o pai ‘dela’ são ótimas também (vide a referência ao episódio do Chapolin no qual o pirata Alma Negra bebe o sonífero. Hehehe).

As histórias que ‘ela’ escreve, sempre com uma heroína que vem do futuro, além de engraçadas, recheiam o filme e não deixam que ele se torne monótono ou perca o ritmo. Aliás, é impressionante que um filme de 2 horas e 20 minutos, um caso raríssimo para a comédia, nos mantenha presos e curiosos para saber o desfecho por tanto tempo. Um detalhe interessante é que como na Coréia o sistema de produção e exibição força a maioria dos filmes a ficar na casa dos 120 minutos, o filme foi cortado em cerca de 17, 18 minutos na sua versão de cinema, mas há a versão do diretor, que traz os minutos restantes inclusos.

Grande parte do mérito pelo sucesso da obra está nos dois atores principais: a bela Jeon Ji-hyeon, que também pode ser vista em Il Mare (cujo remake é "A Casa do Lago") , e Cha Tae-hyeon, que carregam o filme praticamente sozinhos. A primeira interpreta de forma competente e divertida uma pessoa completamente instável e descontrolada, que num momento está bem e no seguinte está explodindo de raiva querendo matar o pobre Gyeon-woo. O segundo se sai muito bem como o bom rapaz sem rumo na vida que suporta as muitas mudanças de humor dela e se propõe a praticar esportes que não domina (“por que a bola sempre atinge a minha cara?”), escalar uma montanha apenas para tê-la por perto, entre outras coisas. O monte de caras e bocas dos dois me lembraram o Jim Carrey, mas nada muito exagerado.

Tão bom é o trabalho deles que após os dois primeiros atos estamos realmente preocupados e angustiados com o desfecho que vai se insinuando. E não tente comparar ‘My Sassy Girl’ com qualquer outra comédia que você á tenha visto. Aqui não há espaço para sentimentalismo barato nem lições de moral. Funcionando como antítese dos dois primeiros atos, nos quais o riso rola solto, o prolongamento é puramente emocional e dramático, sem situações forçadas para estimular o riso e o choro.

A trilha sonora se encaixa de uma maneira exemplar com o filme, que tem como tema principal a música ‘Cannon e ré menor’, do compositor Johan Pachelbel e “My Girl”, de Smokey Robinson e Ronald White, do grupo “The Temptation”.


Para aqueles que acreditam, o filme propõe ainda uma discussão interessante: com tantos encontros e desencontros os dois personagens não estariam destinados um para o outro? O destino realmente existe? Somos donos do nosso destino ou ele é que nos tem?

Seja qual for a sua resposta para essas perguntas, prepare-se rir (e chorar, se você for mais sensível) bastante com esse filme que, sem nenhum medo de exagerar, considero a melhor comédia romântica já feita. Quem sabe vendo o filme com amigos você não conheça uma “pessoa do futuro”...

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O filme não tem distribuição no Brasil, mas (pra variar) vai ganhar um remake americano que será dirigido por Yann Samuel e terá no elenco a linda Elisha Cuthbert (de "Um Show de Vizinha") e Jesse Bradford (de "A Conquista da Honra"). Alguém aí quer apostar que o remake não vai chegar aos pés do original?

domingo, 27 de janeiro de 2008

HERÓI.

Poesia em estado puro, o filme de Zhang Yimou é um desbunde não só para os sentidos, mas para o coração.



Com: Jet Li Lianjie, Tony Leung Chiu-wai, Maggie Cheung Man-yuk, Zhang Ziyi, Chen Daoming, Donnie Yen Ji-dan, Liu Zhongyuan, Zheng Tianyong, Qin Yan, Chang Xiaoyang. Diretor: Zhang Yimou China, 2002 – 98 min.

Trailer:

http://www.youtube.com/watch?v=xehvuJy26IA&feature=related

Cotação: 10

Herói é o primeiro filme épico feito pelo diretor chinês Zhang Yimou e uma poesia cinematográfica de uma hora e quarenta minutos. Poucas vezes me senti tão fascinado e satisfeito após sair de uma sala de cinema. Chega a ser difícil falar sobre herói porque o filme é, sem exageros, PERFEITO.

Partindo de uma premissa simples que tem como influência direta o filme Rashomon, do mestre Akira Kurosawa, Herói conta várias versões de uma mesma história. Na China antiga, no período dos Estados Guerreiros (475-221 A.C.) e antes do surgimento do primeiro imperador, a nação se dividia em sete reinos. O rei de Qin, o mais forte dos reinos, quer unificar os sete territórios, e por isso sofre constantes tentativas de assassinato. O que mais o preocupa são três assassinos de elite contratados pelos opositores de Qin. Um dia, um dos xerifes do seu reino entra em seu castelo e afirma ter derrotado sozinho os três assassinos mais temidos nos reinos. Como prova, ele traz as armas dos adversários derrotados.

Como filme de gênero do tipo Wuxia Pian (filmes de espadachins chineses), o longa tem seqüências de ação maravilhosas que ensinam aos mais impressionáveis (e aqui vai uma alfinetada direta aos fãs de Star Wars que se impressionaram com a luta de espadas no episódio 3) como é que se luta de verdade. De tão bem feitas e coreografadas, elas parecem mais um balé com espadas que uma luta.

A trilha sonora conta com um violino inspirado do veterano Itzak Perlman e é belíssima, assim como o resto do filme, o que só faz com que o espectador mergulhe ainda mais na trama.

Pena que por ser um épico que arrebatou as bilheterias dos cinemas americanos, as pessoas pensam logo que o filme TEM QUE TER ação durante toda a projeção num ritmo frenético, humor imbecil a la comédias americanas idiotas, efeitos especiais, adrenalina e explosões. Talvez isso aconteça porque já tenhamos sido (em quase maioria) domesticados a gostar desse tipo de coisa, que os que ditam a ‘moda’ dizem que é cool, enquanto filmes como Herói são tidos como coisa de Nerd. Puro preconceito de gente imbecil que se julga melhor que os outros, quando o que acontece é o contrário.


Se você ficar curioso pra ver o filme, tenha uma coisa em mente: Herói é um filme oriental. Cada frame é pra ser apreciado como uma obra de arte, um quadro de Picasso. Os silêncios estão ali para serem ouvidos e sentidos, por serem parte vital da história, não um motivo de distração e abstração pra você papear com a pessoa ao lado, mexer no celular, na bolsa...

E a ação de que falei há pouco ainda é reforçada pela absurdamente linda fotografia de Christopher Doyle, colaborador de Yimou, que é um desbunde para os sentidos. De tão bela a fotografia, chega a ser difícil de acreditar que existam lugares tão bonitos na face da terra. Destaque para a cena entre Neve Voadora e Lua, na qual todo o bosque fica vermelho e para a cena no lago, que é emocionante de linda.

As cores são um espetáculo à parte e variam de acordo com a versão da história. O vermelho significa paixão e traição; o verde, juventude; o azul, amor; o branco, a verdade, e o preto, luto. Mas apesar de ser um filme de ação, não é esta que está em voga, mas sim o elemento humano. A ação é apenas um pano de fundo para se contar uma história de revolução, amor, ideais e sacrifícios em prol de um bem maior. Além disso, o filme é de uma sensibilidade ímpar a começar pelo nome dos personagens: Céu, Espada Quebrada e Neve Voadora.

Na verdade, como poderia um filme com personagens com esses nomes ser menos que uma poesia? De todos os personagens, o que mais me cativou foi o de Tony Leung, Espada Quebrada. Dono de uma visão singular da vida e do mundo, ele chega ao ponto de abandonar uma luta para limpar uma gota d’água que cai no rosto de sua amada. A bela Maggie Cheung também está muito bem como a ressentida Neve Voadora. Zhang Ziyi, estrela de O Tigre e o Dragão e colaboradora antiga de Yimou, tem uma pequena, porém importante participação no longa como Lua, pupila de Espada Quebrada. Mas apesar de todo o elenco ser bom e de Tony Leung roubar a cena, destaco a atuação de Jet Li como o xerife Sem Nome como uma ótima e inesperada surpresa.

Quem está acostumado com os filmes que Jet Li faz nos “States” e viu Herói também deve ter se surpreendido com a sua atuação. Não me refiro às lutas, porque ele é um senhor lutador, mas à composição do personagem. Não que achasse ele um mau ator (até porque Jet nunca teve nos EUA um papel bom o suficiente para mostrar se sabe ou não atuar), pois ele é até razoável nos fracos papéis que pega na terra do tio Sam, mas quem conseguiu fazer com que ele tivesse o ótimo desempenho que tem nesse longa merece um prêmio. Minhas dúvidas em relação à sua performance dramática desapareceram por completo depois de Herói, embora saiba que ele dificilmente terá a oportunidade de mostrar esse talento nos EUA.



E para aqueles que se irritam ao ver personagens de filmes chineses voando, digo logo: em Herói eles voam, e voam muito, mas não por algum tipo de superioridade ganha através de superpoderes, e, sim, por poesia. No universo do filme aquilo é possível a qualquer um, e não a uma minoria de escolhidos ou agraciados por deuses ou entidades extraterrenas.

Além disso, eu pergunto: por que ver um chinês voando enquanto luta é tão estranho e ver um palhaço vestido de aranha escalando paredes e soltando teias pelos pulsos, ou ainda ver outro palhaço que veio de outro planeta vestindo uma sunga vermelha por cima de uma calça voando é tão normal? Muito simples: “Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 18...”



Herói é, antes de tudo, uma obra de arte. E como toda obra de arte que se preze, requer um certo grau de sensibilidade e comprometimento de quem a estiver assistindo. E pensar que se não fosse por Quentin Tarantino, provavelmente o filme nem chegaria ao ocidente...

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O filme foi distribuído no Brasil pela Miramax e pode ser facilmente achado em qualquer locadora.

domingo, 20 de janeiro de 2008

300

Como filme pipoca de ação a que se destina a ser, 300 é mais um exemplar que satisfaz seus objetivos principais: divertir e encher os olhos da geração imagem com um grande espetáculo visual. Como um divisor de águas na história do cinema, uma falsa promessa.

Estrelando: Gerard Butler, Lena Headley, Rodrigo Santoro, David Wenham, Dominic West. Distribuidora: Warner Bros. “300” EUA, 2006. 117 mins. Direção: Zack Snyder.

Site oficial: http://300themovie.warnerbros.com/

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=wDiUG52ZyHQ

Cotação: 6,5

Se a palavra ‘macheza’ tivesse que ser materializada, ela certamente teria como seu maior representante ‘300’. E ser macho no universo do filme não significa apenas falar grosso e sair distribuindo sopapos (há quanto tempo você não via essa palavra escrita?) em todo mundo; aqui, ser macho quer dizer falar aos berros, amar a guerra, ser musculoso, vestir apenas sunga, capa e capacete como os caras do Manowar e meter com força em sua companheira.

Baseado na HQ de Frank Miller, o filme narra a história real da batalha de Termópilas (que aqui foi fantasiada), na qual o rei Leônidas e seu grupo de 300 homens conseguiram resistir ao ataque do exército do imperador Xerxes. A batalha se tornou célebre devido os números envolvidos: enquanto os espartanos tinham apenas três centenas de combatentes e a ajuda de mais alguns povos, os persas eram milhares.



Dirigido por Zack Snyder (que estreou no cinema com a refilmagem do clássico do terror ‘Madrugada dos Mortos), muito foi dito a respeito do filme na época do seu lançamento. Entre elas, que ele revolucionaria o modo de se fazer cinema, que a força das imagens nos faz relevar as falhas narrativas (?!), que a tecnologia usada nas filmagens era original e inovadora e a pior de todas e a qual nem me darei o trabalho de comentar:"Pra que diálogos num filme sobre Esparta?". Sensacional... Discordo de todas as afirmações.

1º) Como assim revolucionar a forma de fazer cinema, cara-pálida? Em termos de estrutura narrativa não há absolutamente nada de novo, muito pelo contrário: ao incluir a fraca subtrama com a rainha Gorgo, que tenta convencer o conselho a enviar reforços aos ‘300’, além do diretor tirar o foco da ação, um dos grandes (e poucos) trunfos do filme, ainda quebra o ritmo do trabalho.

2º) É cada coisa que vou te contar, viu...? Ouvi por aí que devido à força das imagens os problemas narrativos do longa são facilmente superados. Peraí, acho que não entendi direito... Quer dizer que se você sai com uma pessoa e ela se mostra prepotente, arrogante, rude e outras coisas mais você deixa isso passar na boa se ela for bela? Então tá...

3º) No campo da tecnologia, outro engano: a propaganda que prometia um filme com efeitos únicos, intensidade e ineditismo extremo já nasceu morta, uma vez que a escolha em filmar atores de verdade em fundos verdes nos quais os cenários são inseridos digitalmente já foi usada em filmes como e Capitão Sky e o Mundo do Amanhã, Casshern e Sin City (os dois últimos excepcionais).



Sendo assim, menos mal que o filme calque todas as suas forças nas imagens e na ação. Com uma edição rápida e arisca, as seqüências de batalha são muito bem filmadas e completamente estilizadas. Muitas pessoas têm problemas com esse tipo de montagem que remete aos videoclipes, eu não. Acho até que se for usada na medida certa funciona muito bem e que foi a escolha mais certa no projeto. As acelerações e efeitos de câmera-lenta realçam as decapitações e jatos de sangue gráfico que ocorrem de 5 em 5 minutos. As cores são fortes e fiéis à HQ e a fotografia, linda. As imagens são vivas e belíssimas, destacando-se a cena de batalha no desfiladeiro e a ‘árvore de cadáveres’, que são realmente fantásticas.

Mas nem só de efeitos especiais e imagens se faz um filme. Enquanto os dois primeiros itens são soberbos, os diálogos, recheados de frases de efeito, parecem querer transformar os espectadores em mais um dos homens de Leônidas (o que não funcionou comigo) e são péssimos. E não venha me dizer que eu tenho que relevar (de novo?!) isso porque há milhões de filmes de ação por aí com diálogos inteligentes ou que, ao menos, não tentam insultar a inteligência dos espectadores.

Uma coisa que me chamou a atenção e que já tinha percebido em filmes como os da trilogia dos anéis é a forma como os estrangeiros são mostrados. Enquanto os espartanos são todos brancos, de olhos claros e de corpos esculpidos, os inimigos são negros, asiáticos, mestiços, espartanos deformados... O diálogo entre Elfíaltes (que segundo a história era um político e não uma pessoa deformada, mais uma das ‘liberdades’ tomadas pelo filme) e Leônidas deixa claro que tudo o que difere dos ideais de Esparta é visto como inútil e descartável e visto com desconfiança.



Eis um pedaço diálogo:

Elfíaltes:
Sábio Rei, eu humildemente peço por uma audiência.

Capitão da tropa espartana:
Te matarei onde está!

Leônidas:
Não dei tal ordem. Perdoe o Capitão. É um bom soldado, mas não tem muita educação.

Elfíaltes:
Não há nada o que perdoar, Bravo Rei. Sei como pareço.

Leônidas:
Veste as roupas de um espartano.

Elfíaltes:
Me chamo Efíaltes. Garoto de Esparta. O amor de minha mãe levou meus pais a fugirem de Esparta para eu não ser descartado...

Aliás, os ‘defeitos’ são sempre dos outros. Todos sabem que os gregos eram chegados numa sacanagem, que nas termas eram realizadas orgias e que nessas orgias havia relacionamentos gays, mas em 300 isso não acontece, passando a ser uma premissa dos súditos de Xerxes, conforme mostrado numa cena dentro de um dos redutos do imperador persa. Seria um pecado para um espartano participar de uma orgia desse tipo? Aqui, sim. O universo e a prerrogativa hétero-macho-man do filme não permitem, ainda que haja todo contexto homoerótico no fundo (e com trocadilho) da obra. É preciso deixar bem claro para o espectador que os espartanos são ‘perfeitos’.



Alguns dizem que pelo fato dos acontecimentos serem retratados a partir do ponto de vista de Leônidas, é preciso relevar (outra vez?!) o fato dos persas serem vistos como ‘bárbaros’. Aliás, esse assunto criou a maior quizumba lá no Irã, onde todo mundo reclamou pra caramba. Como não é bobo, Zack Snyder tratou de pedir desculpas imediata e publicamente a todos os que se sentiram ofendidos com o filme.

Quanto à violência, a maneira como ela é abordada no filme é um tanto... digamos... assustadora. Mas não no sentido de causar medo e arrepios, porque é tanta a estilização e digitalização da mesma que ela perde aquela coisa instintiva e ‘animalesca’ que transborda em filmes como “Izo” e fica um tanto artificial. Ela assusta pra valer na forma como é tratada. Se nos filmes de Park Chan-wook a violência não se justifica por si só, o que vemos aqui é a glorificação da mesma, já que os espartanos esperaram e viveram praticamente toda a vida para aquele momento (“who wants to live forever?”). E é no mínimo irônico que seja o próprio Xerxes o personagem mais sóbrio da história, já que é ele quem tenta evitar inúmeras vezes o confronto com os espartanos. Por várias vezes cheguei a pensar: “Pô, até que esse cara é sangue bom”.



O receio que tive ao assistir 300 foi o mesmo que senti ao ver as pessoas saindo do cinema depois de “Tropa de Elite” tomando como corretos, normais e dignos de aplauso comportamentos como o do Rei Leônidas e do Capitão Nascimento. Mais: querendo ser como eles. Os dois acham que estão defendendo a liberdade e o bem-estar dos seus (o que é uma verdade), mas os métodos para alcançar esses fins é que não batem com seus discursos, que são contraditórios. Leônidas prefere sacrificar seu povo a negociar e poupar todos em nome de uma glória post mortem e de uma liberdade que prega messianicamente, o que o coloca lado a lado com os mesmos bárbaros ‘persas’ de hoje, que se matam e matam por um ideal. Outra contradição no seu discurso está justamente no fato dessa mesma liberdade bradada aos quatro ventos não valer para todos, já que Esparta tinha escravos.

O elenco agarra com unhas e dentes os papéis e se as interpretações não são fabulosas, tampouco são repreensíveis, uma vez que o roteiro não se aprofunda na constituição dos personagens, limitando-se apenas a mostrar o lado ‘brucutu’ de todos. As únicas cenas em que se mostra algum tipo de ‘humanidade’ nos 300 acontecem quando Leônidas se despede da rainha Gorgo, quando manda um cordão para a mesma e quando o Capitão (SPOILER. Pule este pedaço do texto se você ainda não viu o filme) perde seu filho. Mas ele logo volta à normalidade querendo mais sangue persa. Gerard Butler encarna Leônidas com intensidade, mas não salva o filme, que tem um fraco roteiro. Rodrigo Santoro, caracterizado identicamente ao personagem a HQ, também faz um bom trabalho na pele do gigante Xerxes. O ator teve sua voz alterada digitalmente para que ela ficasse mais grave e teve que atuar olhando para baixo, para dar a impressão de que ele é um gigante.


Tivesse o diretor deixado o foco em contextos históricos, acredito que o resultado teria sido pior. Pior, sim, porque existem dois tipos de sucesso: o financeiro/comercial e o artístico. E por mais que Snyder diga que não esperava o sucesso do trabalho junto às massas, esse discurso soa batido e artificial, já que o que mais vende é violência e sexo (ou sexualidade), elementos que o filme tem de sobra. E ainda que a cena de sexo entre Leônidas e a rainha Gorgo não seja uma coisa que se diga: “nossa, que sacanagem!”, acredito que ela consegue satisfazer os mais exaltados. Desse modo, ‘300’ já nasceu pronto para a glória (se artística, comercial ou ambas, você decide).

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

FAILAN

Um caminho de pedras permeado pela esperança.


Com: Choi Min-sik, Cecilia Cheung Paak-chi, Son Pyong-ho, Gong Hyong-jin, Kim Chi-yong, Min Kyong-jin, Sin Chol-jin, Kim Yong-son. Coreia do Sul/Hong Kong, 2001 Cor – 116 min. Direção Song Hae-seong.

Nota: 9,00

Após a morte da mãe, Kang Failan (Cecilia Cheung) emigra da China buscando emprego no restaurante de uma tia que vive na cidade de Inchon, na Coréia do Sul. Ao chegar lá, descobre que ela se mudou para o Canadá, ficando sozinha num lugar que não conhece, sem poder contar com ninguém e sem dominar o idioma. Failan não busca nada além de uma vida simples, qualquer trabalho honesto e um local digno onde possa viver, e para isso terá que trabalhar duro.

Lee Kang-jae (o sempre ótimo Choi Min-sik) é um gangster acabado que não tem o respeito de ninguém na gangue em que trabalha. Apesar de ter a mesma idade de Young-sik, líder do grupo que explora a imigração ilegal, bares e prostitutas, está no mesmo nível de jovens que acabaram de entrar na organização. Por mais que tente, Kang-jae não consegue se impor perante os outros, sendo constantemente humilhado por garotos com metade da sua idade e pelo próprio chefe, que o acusa de “não ter sido cunhado para o ofício” por não ser duro o bastante quando a situação exige. Ele deseja comprar um barco para voltar à sua cidade natal e trabalhar como pescador, e um incidente lhe dará essa chance, mas tudo tem seu preço.



Falar sobre Failan é um tanto difícil pra mim porque cada frame da projeção me desafiou como poucos filmes ainda conseguem fazer. E nesse desafio fui vencido por nocaute. Sem vergonha alguma de dizer, confesso que chorei (e muito) com a história. O filme despertou em mim um sentimento não apenas de pena, mas de preocupação com os personagens, pois à medida que o longa vai se desenrolando e vamos conhecendo mais das vidas miseráveis dos protagonistas, é impossível não se emocionar com a trajetória de ambos.

E é comovente a maneira como os personagens vão se desenvolvendo. A improvável relação entre Failan e Kang-jae nos é lentamente desvendada através de flasbacks que nos mostram suas histórias separadamente. Diferente do que acontece em outros filmes do gênero, o diretor Song Hae-seong não permite que o filme abuse de situações forçadas para tocar a sensibilidade do espectador e emocionar. Isso torna a maneira como os dois personagens se ‘relacionam’ crível, já que não lhes resta mais nada nem ninguém no mundo, sendo um a esperança da qual o outro precisa para continuar vivendo.



Cecilia Cheung compõe de forma brilhante uma personagem de aparência frágil, conseguindo passar apenas através de olhares mais do que muitas palavras conseguiriam dizer. A cena em que Failan se dirige ao senhor que a indicou para o trabalho que pegou para dizer que está doente é tocante.

Choi Min-sik (conhecido do público brasileiro como Oh Dae-su, do fabuloso "Old boy") mais uma vez mostra porque é considerado um dos melhores atores da atualidade e consegue criar um personagem ambíguo que nos leva a sentimentos diversos. Kang-jae tem uma vida “que nem cachorro leva”, o que nos causa piedade, mas ao mesmo tempo age de forma repugnante em alguns momentos, o que nos causa raiva. À medida que ele vai se apegando à Failan, começa a criar a coragem necessária para fazer o que sempre quis e uma outra faceta sua se mostra. Um exemplo dessa mudança de comportamento e do brilhantismo do ator pode ser visto na cena em que o seu personagem lê uma carta num cais. Ele consegue passar um realismo tal em suas cenas que parece que não estamos assistindo a um filme, mas presenciando tudo ao vivo.


E o trabalho de composição dos atores é fundamental para o funcionamento do longa, que após um rápido prólogo no qual vemos Failan chegando à Coréia, dá a impressão de ser um filme sobre a máfia devido o foco inicial em Kang-jae. Mas não se iluda. Baseado no livro do escritor japonês Asada Jiro, este é um poderoso drama. Dizem que é um dos filmes mais tristes da década, sendo capaz de fazer a mais fria e dura pessoa se comover.

Failan realmente é um filme muito triste, mas também é uma obra que durante toda a sua visualização se mostra permeada pela esperança, a qual não é só em dias melhores, mas também na possibilidade de futuro que um pode (ou poderia) vir a representar para o outro, que se converte em gratidão e amor. Uma das grandes ironias do longa é o fato de Failan se dirigir por duas vezes a um local chamado esperança para solucionar o seu problema de permanência na Coréia.



Como diz o ditado, “a esperança é a mãe da decepção”. Talvez venha daí toda a tristeza da película.

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O filme não tem distribuição no Brasil, estando disponível em DVD coreano (Tube Entertainment, R3), no de Hong Kong (China Star, R3) e na versão americana, cujo código do disco é o da região 1 (EUA e Canadá).

domingo, 6 de janeiro de 2008

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS

Os limites a que uma amizade pode chegar

Estrelando: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov, Alexandru Potoceanu, Romênia, 2007. 109 Min. Direção: Cristian Mungiu.

Site o ficial: http://www.4months3weeksand2days.com/

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=Y1KCZLdLbIQ

Cotação: 9,00.

Vencedor da Palma de ouro de 2007, 4 Semanas, 3 Meses e 2 Dias, do diretor Cristian Mungiu, surpreendeu o mundo ao desbancar superproduções do cinema mundial, como Zodiac, dirigido por David Fincher (Seven e Clube da Luta). Muitos não entenderam como o filme de um diretor desconhecido e de baixo orçamento (o longa custou ‘míseros’ 600 mil Euros) conseguiu tal façanha, mas o fato é que conseguiu, e tem todos os méritos do mundo para isso.

Parte de um projeto chamado “Histórias da Era de Ouro” (do qual faz parte o também extraordinário A Morte do Sr. Lazarescu), o longa se passa em um único dia de 1987, nos momentos finais do comunismo, e conta a história de Gabitza e Otilia, duas jovens amigas que dividem um quarto na universidade. Gabitza está grávida e o aborto é proibido na Romênia. Devido à recessão no país, várias pessoas trabalham no mercado negro oferecendo este serviço. Para que ninguém desconfie, Otilia aluga um quarto num hotel e recebe o Dr. Bebe, contratado para ‘dar um jeito na situação’. Ao descobrir que a gravidez de Gabitza está num estágio mais avançado que o que ela havia dito por telefone, as exigências do médico para realizar o serviço aumentam a um preço que as duas não estão preparadas para pagar.

Assistir a esse filme foi como levar um soco no estômago do Mike Tyson. Acompanhamos o humilhante processo pelo qual as duas jovens passam para conseguir realizar o aborto como uma terceira pessoa, graças ao fabuloso trabalho de câmera de Mungiu. Os diálogos são muito naturais e não soam forçados; as cenas, longas, sem cortes, cruas e reais, impressionam. A seqüência em que Otilia se lava no quarto do hotel é poderosa (me lembro de conseguir ouvir a respiração dos outros, tamanho era o silêncio no cinema), mas é apenas uma delas. E Mungiu não nos poupa. Tal é o realismo que não há música no longa, só o som de passos nos corredores, tilintar de copos, som de isqueiros sendo acendidos, o que aumenta ainda mais a brutalidade (já imensa) do filme.

A fotografia gelada e escura e a direção sóbria pressupõem distanciamento e ausência de julgamento para com os personagens, contribuindo para aumentar a sensação de veracidade que permeia todo o trabalho.


A urgência da história é conferida ao sermos jogados de repente no meio da situação em que as duas jovens se encontram e no desenrolar da trama em atos simples como conseguir um cigarro, falar com o namorado, tentar arrumar um quarto de hotel, tentar fingir felicidade durante uma festa...

Mungiu consegue comover sem apelar para música ou closes, recursos tão utilizados para fazer a platéia se afogar em lágrimas. O trabalho dos atores é sensacional. Laura Vasiliu confere o tom certo de imaturidade a Gabitza, como podemos perceber no intenso diálogo que ela trava com o dr. Bebe. Envolta na situação real que é a prática do aborto, a conversa é perfeitamente crível e passível de identificação por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Não posso esquecer de Vlad Ivanov, que faz o dr. Bebe. Ele está muito bem na pele do frio médico e o monólogo em que tenta racionalizar a situação para as moças é sensacional. Mas o filme é de Anamaria Marinca. Ela está incrível na pele Otilia, fiel amiga que fará tudo (tudo mesmo) por Gabitza. São dela os momentos mais fortes do filme, como o que ela tem de se livrar de uma vez por todas do ‘problema’ e sai no meio da noite procurando o melhor lugar para despejá-lo.


Sem levantar bandeiras pró ou contra o aborto, 4 Meses... é um filme extremamente realista, e por isso mesmo, bastante pesado. Mungiu conduz tudo com mão firme e cria uma atmosfera tão densa que nos últimos 20 minuto de projeção parece que não estamos mais assistindo a um drama, mas a um filme de terror dos mais assustadores (o que me fez lembrar de "Audition", do mestre Takashi Miike).

Poderoso olhar sobre os limites a que uma amizade pode chegar, o filme é direto, honesto, e, infelizmente, um retrato do que deve ocorrer diariamente mundo afora.

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O filme ainda não tem data de estréia nos cinemas brasileiros. Alguns boatos indicam que ele deve estrear por aqui ainda nos primeiros meses do ano, mas nenhuma informação oficial foi dada até agora.